Banville/Black
Chapinhando os sapatos encharcados
Dentre os ficcionistas em atividade, o irlandês John Banville (1945) talvez seja o melhor prosador da língua inglesa. Frase por frase, construção por construção, ninguém é tão preciso e, ao mesmo tempo, tão imprevisível em sua imageria. Isso é facilmente verificável em qualquer romance publicado por ele desde a estreia, em 1971, com o pesadelesco Nightspawn.
Agraciado com o Booker Prize por O mar, autor de obras-primas como Luz antiga e The singularities, desde 2006 Banville também escreve obras policialescas situadas (em sua maior parte) na Dublin dos anos 1950, protagonizadas pelo patologista Quirke, alcoólatra, grandalhão e péssimo motorista.
A princípio, Banville usou o pseudônimo Benjamin Black para assinar esses autoproclamados “Dublin murder mysteries”. Nas investidas mais recentes (a partir de Snow, lançado em 2020), passou a estampar o próprio nome nas capas, pois, segundo contou (confessou?) por aí, ele trancou Black em um quarto escuro, deixando sobre a mesa uma garrafa de uísque e uma arma carregada.
Diferente do que faz nas “ficções literárias”, Banville escreve seus “mysteries” a toque de caixa, para desopilar e nos desopilar, com resultados nem sempre regulares (em especial nos primeiros volumes), mas sempre divertidos e repletos de uma beleza tão suja quanto insuspeita. No entanto, não obstante essas diferenças quanto à concepção e à execução, o autor afirmou em entrevista ao Guardian que Quirke “mora no apartamento que herdei da minha tia e circula pela área em que eu vivia quando me mudei para Dublin”, de tal forma que seus tropeços, investigações e andanças estão impregnados das lembranças do autor, “mais conectados às circunstâncias da minha vida do que os livros [que assino como] Banville”.
Acho isso fenomenal. Para se aproximar de si, o autor se distanciou dos (maravilhosos) vícios estilísticos que nutriu por décadas.
Dos dez livros protagonizados por Quirke, li apenas os quatro primeiros (lançados pela Rocco no Brasil). Talvez esperando que a editora carioca continuasse a publicar a série, não me ocupei dos outros, embora venha adquirindo as edições originais. Mas, ao que tudo indica, passados seis anos desde o lançamento de Morte no verão, creio que não haverá novas traduções por aqui. A Biblioteca Azul e a Rocco se esqueceram de Banville e Black como a Companhia das Letras se esqueceu de Ali Smith. Não, não vou julgar nem sacanear essas decisões editoriais (imagino que vendessem pouco em nossa pátria tão ilustrada), mas é algo que me entristece.
Saudoso, decidi retomar a leitura da série Quirke. Passados alguns anos desde que encarei aquele quarto volume, achei melhor reler os anteriores antes de encarar o quinto, o sexto etc. E, feliz por reencontrar um velho amigo, dediquei alguns parágrafos (repletos de spoilers) (foda-se) aos dois primeiros.
Ah, só mais uma coisinha: acho que o nome Benjamin Black não foi escolhido por acaso, pois o protagonista de Nightspawn chama-se Benjamin… White. Aliás, Banville divertidamente afirmou que, aos 25 anos, quando escrevia aquele romance de estreia, “Trama, personagem, psicologia: palavras assim me faziam pegar o meu revólver”. Mas não creio que ele sinta o mesmo impulso ao lidar com Quirke.
CHRISTINE FALLS (Picador, 2006). Edição brasileira: O pecado de Christine. Trad.: Lia Wyler. Rocco, 2011.
O primeiro “Dublin murder mystery” assinado por Benjamin Black e protagonizado pelo patologista Quirke é irregular, mas eficiente. Constrói magnificamente a personalidade do personagem principal a partir do alcoolismo, da teimosia e do duplo luto que vivencia: pela esposa, Delia, morta & enterrada há muitos anos, e pela cunhada (irmã de precedente, como diria Oswald de Andrade), Sarah, por quem ele sempre foi apaixonado e que ainda está viva, mas casada com o irmão de criação de Quirke, Malachy (Mal).
A situação é ainda mais complicada: Delia morreu no parto da única filha que tiveram, Phoebe, mas esta não foi criada por Quirke e, sim, por Mal e Sarah, de quem ela acredita ser filha. Eventualmente, esse singelo segredo familiar será revelado, com consequências terríveis e duradouras.
Agora, a escrita, o “estilo”. É possível ver o autor lutando para ser menos Banville e mais Black nesse primeiro volume. Curiosamente, ele alcança excelentes resultados em ambas as raias, por assim dizer. Exemplos?
Banville:
No hall de entrada de sua casa havia o habitual odor que ele jamais conseguia identificar, pardacento, exaurido, uma aragem da infância, se infância fosse a palavra para aquela primeira década de pobreza que ele suportara. Subiu pesadamente a escada com os passos de um homem subindo à forca, chapinhando os sapatos encharcados.
Antes de invocar a voz de Black, uma observação: o trecho acima parece saído de Eclipse (Biblioteca Azul, trad.: Celso Mauro Paciornik):
De início era uma forma. Ou nem mesmo isso. Um peso, um peso extra; um lastro. Eu o senti naquele primeiro dia no campo. Era como se alguém houvesse silenciosamente acertado o passo ao meu lado, ou melhor, dentro de mim, alguém que era distinto, um outro, e ainda assim familiar. (…) Parei, surpreso, surpreendido por aquele frio infernal que eu viera a conhecer tão bem, aquele frio paradisíaco.
Agora, sim, Benjamin Black:
A mulher havia sido amarrada a uma cadeira de cozinha, imobilizada nos tornozelos com as próprias meias e nos pulsos com pedaços de fio elétrico. A cadeira tinha virado e ela estava caída no chão sobre o lado direito. Tinha conseguido soltar um dos braços das amarras. Quirke se surpreendeu com a pose, os joelhos dobrados e os braços para o alto: mais um manequim.
Afirmei que Christine Falls é irregular, mas eficiente. E, com efeito, a irregularidade diz mais respeito a certas hesitações, quando Banville/Black desacelera quando deveria acelerar e vice-versa. Tenho a impressão de que, ao escrever, ele tateava, divertindo-se com as fórmulas policialescas, permitindo-se não pensar nem pesar demais cada elemento narrativo.
Assim, acho que ele entrega muito e muito cedo sobre o crime central, uma rede de tráfico de bebês que serão canalizados para o clero, o que soa absurdo, mas só no começo (afinal, a Igreja Católica criou redes de proteção para coisas incomparavelmente piores: pedófilos). Além disso, nem sempre a alternância de ambientações (entre Irlanda e EUA) é bem alinhavada, por mais interessante que seja o principal personagem norte-americano na brincadeira, um caminhoneiro alegremente infanticida e estuprador.
O desfecho também se arrasta um bocado, mas é muito feliz na medida em que atesta a relativa inutilidade das investigações de Quirke: sim, ele desvenda tudo, mas tarde demais, e suas descobertas não terão quaisquer consequências para os criminosos, sendo que um deles (o mais reles) ainda comete um crime hediondo contra alguém próximo de Quirke antes de sair de cena. Acho que isso engrandece o romance, pois foge à conclusão típica ou formulaica dos maus exemplares do gênero, alinhando-se com o amargor e o desarvoramento dos grandes (Hammett, Chandler, Macdonald, Highsmith, Ellroy).
THE SILVER SWAN (Picador, 2007). Edição brasileira: O Cisne de Prata. Trad.: Talita M. Rodrigues. Rocco, 2013.
Não obstante uma barriguinha que irrompe ali pelo meio, estourando os botões da camisa, The Silver Swan é mais musculoso do que Christine Falls, mais direto e seguro, menos hesitante e, no que diz respeito à trama, mais belo & sujo. Em outras palavras, um senhor romance policial, inclusive (ou sobretudo) pelos contrapés que alcança. E, caralhos, um senhor romance policial é um senhor romance, ponto.
Depois de revelar à filha aquele segredinho familiar, Quirke agora lida com dois lutos reais: da esposa e da cunhada, morta (câncer) entre o primeiro e o segundo volumes da série. E, não muito depois, o protagonista também perde o pai de criação, o juiz Garret Griffin, figura importantíssima no desenrolar do romance anterior, por quem Quirke agora nutre sentimentos conflitantes, para dizer o mínimo.
No entanto, a defunta mais importante em termos narrativos é Deirdre Hunt (ou Laura Swan), que apareceu, nua, nas “pedras na costa da Ilha Dalkey” e pode ou não ter se matado. Billy Hunt, o viúvo, com seu cheiro “quente, forte e salgado (…), o cheiro de quem acabou de perder um ente amado”, foi colega de faculdade de Quirke, a quem procura com um pedido suspeitíssimo: que não haja autópsia.
Óbvio que Quirke ignora a (meia) promessa feita (“Vou ver o que posso fazer.”) ao colega e autopsia o corpo, encontrando indícios de homicídio. Mas, oscilando entre ser fiel ao viúvo (mentindo para ele) e saciar a própria curiosidade (mentindo para si mesmo), ele mente para a polícia — o excelente inspetor Hackett, um dos melhores personagens da série — e em juízo, e decide investigar a morte por conta própria. A partir daí, Banville/Black volta a brincar com algumas fórmulas do gênero.
Para começo de conversa, há dois momentos do livro que correspondem àquela passagem habitual em que o(a) investigador(a) confronta o(a) autor(a) do crime. Há duas resoluções, por assim dizer. O problema é que uma delas é falsa, ou melhor, em uma delas, o investigador está errado em suas conclusões e acusações, e confronta a pessoa errada enquanto a pessoa certa (mas não correta) está à solta, aprontando mais e pior. E, de novo, o erro traz consequências terríveis.
Uma das melhores coisas do romance é como Banville e Black deixam de disputar espaço e se tornam uma coisa só ou, melhor dizendo, uma terceira coisa, que alia a concretude do segundo à imageria do primeiro:
Ele foi até a janela e parou com as mãos nos bolsos, olhando para a grande lua pendurada no céu. Atrás dele, na cama, nenhum som, nenhum movimento, nada, apenas uma grande ausência, avolumando-se. No céu, bem baixo, uma massa de nuvens corcoveava, azul como uma baleia, com uma franja ao longo da borda superior brilhante como metal derretido.
Banville/Black se diverte e nos diverte com a inversão de certos códigos: o investigador entende tudo errado, e mais de uma vez; há um clímax violento no romance, mas o melhor, o mais interessante, é o anticlímax que brutalmente engolfa o protagonista, lançando-o com tal força no chão de seus equívocos que ele (após meses de alguma sobriedade) recorre com todas as forças à bebida.
Sendo alguém que tentava entrar nos eixos, rodeando a filha que finalmente assumira, mas que previsivelmente o rejeita, Quirke é colocado em seu devido lugar: em um banco de praça, bêbado e sozinho, sem saber direito como, diabos, foi parar ali e, ao mesmo tempo, sabendo direitinho como, diabos, foi parar ali — e acho que isso dói muito, muito mesmo.




